Peça: Pret A Porter 9
Autor: Fábio Rocha
Nota: 
“Pret A Porter 9” é um exercício de cena que o público presencia, mas acaba se sentindo frustrado por não poder compartilhar de modo mais direto as sensações dos personagens presentes no palco. É também um espetáculo de “naturalismo levado ao requinte”, como escreveu Renato Mendonça, do Zero Hora, que cria cenas do cotidiano que passariam despercebidas por nós.
Dividido em três partes, “Pret A Porter 9” narra a história de gente comum, sem nenhum talento excepcional, em lugares comuns. Em “Um Escritório Ao Entardecer”, os atores Osvaldo Gazotti e Vanessa Bruno interpretam dois funcionários que estão perto do fim do expediente de uma sexta-feira. A relação dos dois dá pequenas pistas de um relacionamento reprimido pela opinião dos outros, mas (e graças ao talento da dupla) vemos que eles, apesar de se reprimirem, estão dispostos a arriscar em um futuro próximo. A técnica da dupla em cena é digna de elogios! Valorizando os pequenos gestos, os dois criam personagens comuns e envolvem o público, despertando empatia e compaixão. A cenografia e o figurino são simples, mas muito eficientes.
Em “Edifício Copan”, acompanhamos a vida de duas moças que dividem um pequeno apartamento no famoso edifício. Essa dupla também demonstra competência e agilidade com as palavras, visto que o texto é muito descritivo (outra característica do ser humano). Quando uma das personagens não sabe o nome de uma moradora do prédio, ela a descreve simplesmente como “a senhora que cheira a gatos” (muito bom!). Além de outras descrições engraçadas, o texto também nos faz refletir sobre o significado de “liberdade”, e aqui a cena dá um belíssimo exemplo de simbologia através da pequena janela do apartamento. O figurino e a cenografia são um pouco mais coloridos que o conto anterior e as atrizes Simone Iliescu e Angélica di Paula estão ótimas.
“Bibelô de Estrada” é o melhor dos três, pois consegue dosar comédia e drama perfeitamente. Nesta história acompanhamos um dia na vida de uma prostituta que sonha com o estrelato e de um fugitivo. O isolamento é retratado pelo ar cansado criado pela maquiagem dos atores, pela belíssima cenografia (o quarto todo desarrumado) e pela melancólica canção tocada por Émerson Danesi. O figurino está muito bem desenvolvido, revelando as características de cada um e a trilha sonora está mais presente do que nos dois anteriores (vale destacar a presença das músicas da Madonna). Mas o destaque maior da cena é, sem dúvida, a atuação da dupla. Émerson Danesi cria um homem enigmático que pode ser comparado ao mar: hora tem momentos de calmaria, hora tem momentos de fúria. O cuidado e a atenção com que o ator cria várias faces para um único personagem em tão curto espaço de tempo (cada conto dura em média trinta minutos) é admirável! E a caracterização da prostituta? É comovente ver uma personagem tão real. Ela se diverte com pouco, sonha, é ambiciosa, é carente, é menina e, ao mesmo tempo, mulher vivida. Uma das cenas mais tocantes de toda a peça é justamente com ela: quando a peruca que a personagem usa (e fica claro que é uma peruca desde o início da cena) é removida, surge na personagem um complexo de inferioridade e uma insegurança monstruosos, como se ela estivesse sendo despida em público, e a imagem que se forma fica cravada no inconsciente de quem presencia a cena fazendo um maravilhoso paralelo com as fraquezas do ser humano.
Um espetáculo muito bom que peca apenas por possuir alguns momentos de calmaria em seus primeiro e segundo atos, mas que são defeitos muito pequenos que possam comprometer o resultado final. Assistam!
Escrito por fabiorocha89j às 12h32
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Peça: Romeu e Julieta
Autor: Fábio Rocha
Nota: 
Mesmo não sendo tão famoso quanto “Hamlet”, “Macbeth” ou “Otelo”, “Romeu e Julieta” tornou-se um dos textos mais famosos, pelas mãos de Shakespeare, além de ser referência quase que obrigatória para qualquer escritor que queira desenvolver um texto romântico. Sobre o grupo “Loucos do Tarô”, eu já assisti a dois espetáculos: “De 50 Pra Cá” e “O Baú da Inspiração Perdida”, e, apesar de o primeiro me agradar mais, devo dizer que o grupo, apesar de ainda ser limitado, nunca me decepcionou.
A história é famosa: Romeu Montéquio e Julieta Capuleto, filhos de famílias inimigas, se apaixonam perdidamente e decidem fugir para viver essa grande paixão, mesmo contrariando a vontade de seus pais. Já viu isso antes? Claro que já! Isso é roteiro de qualquer novela da Globo ou da Record hoje em dia. Esse texto pode ser a primeira novela das oito da história, visto que Shakespeare era, em sua época, teatro popular. Mas não devemos tirar o mérito do famoso escritor, já que foi com esse texto que ele criou uma escola. Os romances escritos até hoje bebem dessa fonte, além de influenciar várias gerações da cultura pop dos dias de hoje: na música (Dire Straits, por exemplo), no cinema (“O Casamento de Romeu e Julieta”), até mesmo em “Sin City”, de Frank Miller, vemos essa influência (em “O Assassino Amarelo” vemos um casal lutando para sobreviverem juntos). Mas a influência de “Romeu e Julieta” vai além: quem nunca se apaixonou perdidamente na adolescência? Ou teve um relacionamento tempestuoso por todos ao redor serem contra? É por essas e outras que Shakespeare é, e sempre será, um dos escritores mais influentes da história.
O grupo chamou para a direção René Piazentin que, entre outros trabalhos, dirigiu o maravilhoso “Quixote” (sim, sou fã e não canso de falar deste espetáculo), mas apesar de apresentar cenas realmente bem coreografadas (a primeira luta é ótima), há, em alguns momentos, uma certa pressa de resolver as coisas para entrarem em cartaz logo. Não estou desmerecendo o trabalho de ninguém, mas acho que esse problema será resolvido apenas com o tempo. A trilha sonora também foi bem aproveitada, incluindo a valsa final presente no filme “Old Boy”, uma bela composição que serviu como uma luva para a peça. A iluminação não apresentou inovações, passando um pouco despercebida. Mas o destaque vai mesmo para o figurino: todos vestindo peças escuras, como sobretudos, espartilhos, coletes e vestidos, que possuem pequenos adereços coloridos, como um colar, ou mesmo uma rosa vermelha, criam uma atmosfera misteriosa e, ao mesmo tempo, melancólica que preenchem a imagem dos personagens. Há também a presença quase que onipresente de pares e mais pares de tênis All Star (muito legal).
O grupo possui integrantes que são talentos ascendentes e alguns que se limitam, talvez por receio de soarem falsos (realmente o texto é muito difícil). Por ser a segunda apresentação deles, há todo um trabalho de aprimoramento que deve ser desenvolvido com o tempo, mas é bom lembrar que o circuito profissional não gosta de esperar, então é primordial o empenho de todos no desenvolvimento de seus personagens que, por menores que sejam, devem possuir grande presença cênica para preencher as lacunas que vi. Todos, em maior ou menor grau, se limitaram por causa do vocabulário, e também em cenas coletivas (com certa freqüência via alguém desviar o olhar para o público em momentos inoportunos, ou exagerar em determinados gestos). Mas não podemos falar somente o negativo. O lado bom de tudo foi ver um grupo de atores que se desenvolveram e se esforçaram bastante para colher resultados satisfatórios. E realmente devo concordar que, apesar de também apresentarem algumas pequenas falhas, o casal principal demonstrou domínio e boa vontade com seus personagens, segurando bem a responsabilidade. Mercúcio/Frei Lourenço, Benvólio e a Ama (com a pequena criada) nos deram bons momentos com suas piadas e Teobaldo se mostrou um bom antagonista, apesar de se sentir um pouco inseguro em sua primeira cena (nada que o tempo não resolva). O príncipe/frei João/apresentadora/criado (ufa!...), mostrou uma proposta muito bonita com um belo trabalho corporal e carisma para entreter o público (apenas tampando a boca com os próprios gestos em alguns momentos, é só ter mais atenção). Vale destacar alguns momentos, mas a que mais emocionou foi a cena final que começa com o encontro de Romeu com o corpo de Julieta e vai até o fim propriamente dito (aqui também é bom dizer: menos gestos e mais trabalho interno deixarão a cena ainda mais forte).
Um grupo que encontrou algumas dificuldades ao longo de sua (ainda curta) existência, mas que soube montar um bom espetáculo. Apesar das falhas, a história envolve e o carisma de alguns personagens nos prende. Quem sabe mais pra frente eles se desenvolvam mais e mais. Bom.
Escrito por fabiorocha89j às 14h09
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