Peça: A Filosofia na Alcova
Autor: Fábio Rocha
Nota: 
Com um elenco menor, mas muito mais focado no espetáculo do que em aparecer, “A Filosofia na Alcova” se mostra muito superior ao espetáculo “Os 120 Dias de Sodoma”. O diretor e o elenco apresentaram uma grande peça que faz jus ao texto do Marquês de Sade e à montagem anterior do mesmo texto (que também foi muito elogiada).
A fim de educar e preparar sua filha para o futuro, um casal permite que ela permaneça por alguns dias na companhia de dois tutores que moram em um castelo. O que os pais não sabiam é que os proprietários são dois libertinos cruéis que, com a ajuda de um terceiro libertino, pretendem quebrar todos os dogmas religiosos da inocente menina e transformá-la em uma de suas escravas sexuais.
Os escritos do Marquês de Sade são (e isso não é novidade) sempre cheios de fetiches bizarros, palavras agressivas, mas elegantes, e forte teor ateísta. É maravilhoso ver que, ao contrário do que ocorreu com “Os 120 dias...”, o grupo manteve-se focado na essência e na atmosfera do texto original, dando o devido valor ao desenrolar da história que é, sem dúvida, fascinante e chocante. Com uma abertura assombrosa (a trilha sonora é estupenda), o público é jogado para dentro do castelo com uma seqüência de pequenos focos de luz que nos forçam a decifrar o que está acontecendo (são cenas de sexo, sim, “mas como são essas cenas?”). Além de possuir o figurino tão bom quanto “Os 120dias...”, a peça apresenta mais “detalhes” que expões certas partes do corpo (vejam por si mesmos). A luz do espetáculo é o ponto mais forte (junto com a trilha sonora, é claro) e apresenta focos maravilhosos e muito bem distribuídos por todo o espaço cênico (e o final é maravilhoso!).
O elenco (apenas sete pessoas) está muito bem. Existem algumas pequeninas falhas da intérprete da jovem, mas isso é um defeito muito pequeno para tirar o mérito de vê-los tão à vontade (em todos os sentidos) em cena. O talento e a coragem do elenco e do diretor estão mais evidentes ainda no pequeno “concurso de bumbum mais bonito” que entra no meio da narrativa e serve para dar uma aliviada no público. Mas logo após esse inusitado concurso (não tão inusitado assim, já que estamos cheios disso na TV), o espetáculo prossegue distribuindo tiros para todo lado e apresentando cenas fortes, belas (o truque com o espelho é simples, mas maravilhoso) e tensas (a longa seqüência com a mãe da jovem), e chega ao surpreendente final.
Um passeio visceral por uma das mentes mais criativas (depravada? sim. Mas criativa) da literatura mundial e um belo desfile de técnica e talento por parte do grupo dos Satyros, que conseguiu superar o escorregão que deram em “Os 120 Dias de Sodoma”, “A Filosofia na Alcova” é um dos melhores espetáculos em cartaz na cidade. Assistam!
Escrito por fabiorocha89j às 14h51
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Peça: Imperador e Galileu
Autor: Fábio Rocha
Nota: 
“Imperador e Galileu” é um texto muito bem elaborado que critica não só a opinião de religiões, mas o que determinada igreja pensa de outra, além de trazer sérios questionamentos sobre a verdadeira face do homem que ocupa um cargo importante e que se deixa levar pelos próprios devaneios.
O imperador Juliano se vê pressionado a tomar a liderança de uma batalha contra os cristãos que estão se multiplicando. Adepto do Helenismo, Juliano inicialmente aceita a convivência entre as duas crenças, contanto que o povo cumpra suas obrigações com o império, sem qualquer tipo de isenção que qualquer uma das religiões adotou. Mas com o passar do tempo e com o aumento dos conflitos entre os fiéis, Juliano acaba por enlouquecer e passa a pregar uma própria seita, na qual julga a si como o novo “Messias”.
Com exceção do figurino, que é composto por peças de uniformes da polícia militar, cobertos com sobretudos cinzas e alguns adereços, o espetáculo não apresenta nenhuma leitura inusitada ou que fuja um pouco do tradicional. Nos dias de hoje isso não é muito comum, além de ser um fator arriscado que pode tornar o espetáculo um pouco cansativo. A trilha sonora também é óbvia, apresentando acordes fortes em cenas de “revelações”, e falhando em determinadas tentativas de engrandecer momentos que não são tão importantes, ou mesmo necessários (como a cena de previsão do futuro com as pedras). O cenário é bem interessante, com um trono muito bem desenhado, além de uma mesa com um desenho muito bonito das constelações. Há também em determinado momento da peça, a ostentação bandeiras com imagens de divindades. A iluminação apresenta apenas dois momentos realmente bonitos: o foco na mesa com as constelações e a cena que encerra a peça.
O elenco possui atuações corretas, com alguns exageros por parte de Sylvio Zilber (Máximo, o mago e conselheiro) e Nelson Peres (Bispo). Mas essas limitações são compreensíveis, já que grande parte desse detalhe se deve ao grande abismo aberto pelo talento de Caco Ciocler. Com uma atuação rica em detalhes, Caco Ciocler cria um homem fascinante que faz o expectador sentir inicialmente grande empatia com as idéias que o personagem defende, e, ao desenvolver a loucura, consegue a nossa reprovação frente aos atos de elevação própria, mas ainda assim o julgamos inocente, já que o imperador, nesse ponto, não está agindo conscientemente. Para que não conhece o trabalho do ator fora da televisão, a interpretação de Caco Ciocler quebrará muitos preconceitos (sua melhor cena é, sem dúvida, a que o imperador se encontra com a princesa Faustina).
Apesar de ser óbvio, o espetáculo é muito bom e deve ser visto. Se alguém tem certa antipatia por astros da TV, essa é uma ótima oportunidade para ver que nem todos os atores de novela são ruins, são apenas mal aproveitados. Assistam!
Obs.: Caco Ciocler fez sim um ótimo trabalho na TV como Jeremias Berdinazzi na promeira fase da novela “O Rei do Gado”, além de papéis de destaque em filmes como “Olga” e “Bicho de Sete Cabeças” (sendo inclusive premiado por este último).
Escrito por fabiorocha89j às 14h51
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